O que é uma fotografia?

A resposta a esta pergunta pode parecer, à primeira vista, pueril. Mas, se reflectimos um pouco, a questão é mais complexa do que parece. Por exemplo: uma radiografia, uma fotocópia, o microfilme dum documento, a capa de uma revista de moda, um slide, um polaroid, uma imagem digitalizada por via informática, serão fotografias? Recordemos a definição clássica segundo a qual uma fotografia é a imagem que parte da impressão dum suporte fotossensível chamado negativo, o qual dá origem, por sua vez e por um processo inverso, a um positivo. Se nos ativermos a esta laboriosa definição que se me afigura, hoje, obsoleta, seremos obrigados a concluir que a radiografia, o microfilme ou a fotografia do casamento da nossa filha são fotografias. E que a fotócopia, a capa da revista e as fotos de imprensa, bem como as imagens digitalizadas, não o são. Ficam o slide e o polaroid relegados a um limbo dificilmente qualificável, para não falar nas imagens do pobre Nièpce ou nas do mais opulento Daguerre.

A questão pode parecer tão estéril como a que se prendia com o sexo dos anjos. Há todavia um ponto que me parece capital considerar. As imagens que vemos todos os dias impressas nos jornais, nas revistas, nos prospectos ou nos cartazes publicitários não são fotografias, são fotogravuras. A fotografia é impressa com luz, a gravura é impressa com tinta. A diferença é enorme e nem todos se apercebem dela. Essa diferença exprime-se em termo de definição, de espectro de tonalidades e riqueza de contrastes.

Fiquemo-nos por aqui, aguardadndo uma já tardia redefinição da fotografia, quiçá mais simples e mais etimológica, e que se poderia talvez formular assim: «Fotografia é toda a imagem permanente que resulta da exposição dum suporte à acção de uma luz» mas mesmo esta ecuménica tolerância excluiria, a meu ver, a fotografia tipográfica.

Manter-se-ão numa névoa difícil de classificar as fotocolagens, popularizadas pelo pintor inglês David Hockney que utiliza um número variável de fotografias para formar «mosaicos» fascinantes que, a meu ver, mais se aparentam á pintura do que à fotografia. A relação entre essas colagens e uma visão cubista do real é evidente, e para retomar a definição de há pouco, poder-se-ia dizer que cada fotografia que compõe esses mosaicos corresponde a uma diferente «pincelada».

Por extensão desse conceito, manter-se-ão no mesmo limbo indefinido as recentes imagens de origem fotográfica que se fundem numa só, atarvés de manipulações computacionais que criam uma espécie de »sobre-realidade». Também este tipo de criação se aparenta a uma forma de construção ficcional mais próxima da pintura do que da fotografia propriamente dita.

Gérard Castello-lopes por Hélio Paulo Félix

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~ por felix em Setembro 3, 2008.

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