Entrevista ao Realizador João Canijo “Mal Nascida”

Depois de “Noite Escura”, João Canijo volta a focar o interior português em “Mal Nascida”.

Lúcia é uma mal nascida, uma mal amada é a eterna viúva do seu pai. Um grito antes de ser um corpo, enlouquecida, maltratada e humilhada, sobrevive enlutada com a lembrança do crime e da traição da mãe, grita a sua dor inconsolável para não dar descanso nem paz aos assassinos do pai. Vive na esperança desesperada do regresso do irmão para cumprir a promessa de vingar o sangue do pai.

 Três anos depois de “Noite Escura”, “Mal Nascida”, desde ontem nas salas, marca o regresso à tela de João Canijo e o regresso à “tragédia” – no sentido mais clássico do termo. Se no filme anterior o realizador adaptava “Ifigénia em Áulis”, de Eurípides, ao universo português, agora versa-se “Electra”: no interior de Portugal, Lúcia (Anabela Moreira) é o epicentro e símbolo da desgraça de uma mãe (Márcia Breia) que, com o amante (Fernando Luís), cometeu um crime no passado quando a família estava emigrada em França. 
“Mal Nascida” não faz apenas uma rima com “Noite Escura”: era suposto ser o culminar de uma trilogia que, hoje, Canijo não sabe se vai terminar. Desta feita não se vêem prostitutas: rodado em Codessoso, Trás-os-Montes, os cenários – uma casa e um café – são reais e pouco lhes foi alterado. É o país dos santinhos de gesso e dos naprons por cima da televisão. Dos naprons por cima da tragédia absurda. Possivelmente aquilo nem sequer é “Portugal”. Pode ser um arquétipo de um “Portugal” que vai desaparecendo. Mas também pode ser apenas gente.  

Na nota de intenções que escreveu para o filme diz que uma mãe que trai o amor que é suposto dar à filha provoca um ressentimento nesta. E que este ressentimento é uma necessidade de sobrevivência. É isto que enforma a personagem de Lúcia, a filha?

O ressentimento é a razão que ela tem para não se matar. É manter a possibilidade de algo mudar: no futuro haverá uma salvação, que será a vingança alimentada por esse ressentimento permanente. Essa nota de intenções foi escrita em 2006, um ano antes de rodar o filme. Agora acho que o filme é sobre uma pessoa que sente uma total falta de amor, o que talvez não seja verdade, talvez apenas a outra pessoa [a mãe] não seja capaz de o mostrar: em todas as versões da “Electra”, a Electra [filha] é odiosa e a Clitmenestra [mãe] tem momentos de fraqueza, muito mais humanos que a filha. E eu li 14 versões. Há quatro que interessam, a de Sófocles, a de Eurípides, a de Hofmannsthal e a de Yourcenar. Mas em todas elas há um momento em que a Clitmenestra tenta dizer à filha que a ama.

Usar tragédias facilita-lhe o trabalho? Já tem as cenas, as falas…

A tragédia dá imenso jeito, não o nego. Mas o fascínio das tragédias partiu do fascínio pela “Electra”. E já “Filha da Mãe” [1990] era uma adaptação incipiente da “Electra”. Esta suposta trilogia, que começa em “Noite Escura” e acaba em “Mal Nascida” (falta um que não foi feito – nem sei se vai ser feito), foi feita para chegar à “Electra”.

Em ambos há uma recusa em psicologizar as personagens.

A psicologia entra depois. Entra numa parte que não me diz respeito, diz respeito aos actores, na forma como eles elaboram as suas personagens.

Costuma passar umas semanas de leituras com eles antes dos filmes…

Não é de leituras, é à Mike Leigh [realizador britânico, autor de, entre outros, “Nu” ou “Vera Drake”, conhecido pelos seus longos “estágios” com os actores antes da rodagem]: elaboração do argumento com eles. Havia uma estrutura prévia, depois houve alterações ao texto. Havia uma pergunta simples que lhes fazia: “Achas que isto está adequado à tua personagem?” Não faz sentido impor a uma pessoa uma interpretação que não seja a dela. A única coisa que a gente pode fazer é usar essa interpretação e manipulá-la. Essa coisa da transformação de um actor numa personagem é mentira, um actor nunca deixa de ser ele próprio.

Em “Ganhar a Vida” há uma cena em que as mulheres estão à conversa, e uma delas diz que fazer broches alimenta e desatam a rir-se – uma naturalidade desarmante. Neste filme os diálogos de Adelaide, a mãe, são quase música. Mais que naturalidade, você tem ouvido para a conversa feminina – o que implica gostar muito de mulheres.

Gosto de mulheres, sim. Ao longo destes anos, as mulheres actrizes sempre me encantaram muito mais que os homens actores. Nunca consegui encontrar um actor que me comovesse tanto como uma actriz. Não sei porquê. Quer dizer, posso teorizar, mas não tenho a certeza.

Mas teorize, vá.

É uma questão de disponibilidade, de capacidade de exposição da fragilidade. É algo de biológico. O homem, com a sua necessidade de manter o território, tem uma incapacidade de mostrar vulnerabilidade. Há um livro curioso, “Almost like a Whale” [Steve Jones, 1999], que é uma reescrita da “Origem das Espécies” à luz dos conhecimentos actuais. Uma das coisas que diz é que biologicamente, em todas as espécies, a fêmea é receptiva e o macho tem duas maneiras de transmitir os genes: uma é pela força, a outra é pela agilidade. O macho é sempre agressivo e a fêmea é sempre passiva – portanto vulnerável. Gosto das mulheres, acho que são mais complexas e mais fortes e que dão personagens mais interessantes – ainda não fiz nenhum filme em que o protagonista fosse um homem.

“Mal Nascida” está cheio de pormenores mínimos e simbólicos do interior. A garrafa de Ricard que já não tem Ricard, foi reutilizada com vinho a martelo. Isso é típico das terras pequenas.

Das terras pequenas e das pessoas que vieram de França. Só reparei nisso ao fazer a prospecção. Percebi porquê: reaproveitamento. E fica mais bonito. Há uma preocupação com a vaidade, mesmo que depois na maneira de vestir e de estar não pareça. Arranjam-se muito para ir à missa.

A casa é sobrecarregada, todas as paredes estão cheias. O aparador da Adelaide (Márcia Breia) está repleto de molduras. Tem é aquela Virgem fluorescente…

Essa acho um bocadinho exagero. Mas a Virgem era tão bonita que não resisti. Foi uma condescendência, ou uma complacência. Hoje não poria, embora o aparador estivesse tão atafulhado quanto o que se vê.

O café é à antiga, mas depois há o balcão em alumínio, tampos de laminado a imitar mármore.

Isso estava tudo lá. É um símbolo, que corresponde à total falta de ligação cultural entre o passado e o presente que o português tem. Isso é notório nas aldeias: não há nenhuma ligação entre o que está construído antes e o que é construído depois.

As pessoas da sua geração [Canijo nasceu em 1957] com aspirações intelectuais eram francófonas, a minha [os nascidos nos anos 70], com ou sem pretensões, é americana. Os “vossos” intelectuais não queriam olhar para o que era 90 por cento do país. “Nós”, que somos democratas e alfabetizados e não separamos alta e baixa cultura, ainda temos vergonha da avó – e a avó ainda é boa parte do país. Não permanece uma incapacidade de reconhecer Portugal, de o viver, de o aceitar?

Absoluta. Curiosamente, este filme, que mostra mais o cliché de Portugal, foi mais compreendido lá fora que os anteriores. Reconheceram aquele mundo. Não reconheceram “Noite Escura”. A ideia de ruralidade pode ser transportada para outras partes, ao passo que “Noite Escura”, suponho, só podia ser reconhecido em Espanha. Os franceses não pescaram nada daquilo.

A nossa estrutura mental vive sob um paradigma que não nos permite olhar para “ali”, porque o avô pode ter vindo “dali”?

Há uma recusa, que foi muito nítida em “Ganhar a Vida” (2001): o não querer ver os emigrantes. Não estava à espera que o filme fizesse tão poucos espectadores: 10.500. “Noite Escura” fez 16 mil. No “Ganhar a Vida” estava à espera que cá, como em França, se interessassem pelo que apesar de tudo era o primeiro filme de ficção feito com os emigrantes em França. Era o nosso primeiro filme da diáspora.

Está a criar um arquétipo do português que não queremos olhar.

Descobri isso no “Sapatos Pretos” (1998). A partir daí é propositado. Quando parti para fazer “Ganhar a Vida”, supunha que ia encontrar uma caricatura. Chego lá e ganho um respeito que não imaginava por aquela gente. Havia uma coisa que sempre estranhei, que era eles falarem melhor francês que português, mas ao falar uma língua que não é a nossa temos que pensar melhor nas palavras, porque elas não nos saem automaticamente, por isso a verbalização do pensamento é mais correcta. Não vermos isto, não olharmos, tem a ver com profunda falta de educação.

Fazer a caricatura dos emigrantes ou dos supostos rurais é fácil. Mas a província do seu filme tem gordura, tem visco. Não serve quem quer ter amor (à distância) ao povo. Não o poupa.

É fácil caricaturar. Difícil é mostrar o horror em que as pessoas vivem e como se tornam horrorosas por viverem naquele horror. Para haver personagens elas têm de ser humanas. Têm de ter complexidade. “Noite Escura”, sendo numa casa de alterne, partiu de uma ideia justa, mas um bocadinho primária: onde é que uma tragédia podia passar mais desapercebida? Num sítio onde se vive da mentira. O segundo filme [da trilogia], o que não foi feito, é uma evidência. Guerra de Tróia no mundo actual: crime organizado. Não há muitas alternativas.

Uma tragédia incestuosa tem de se passar numa terra onde ninguém se vai meter no que acontece noutras casas.

Num sítio muito fechado. Uma aldeia desertificada e rude e brutal como a gente sabe que são as coisas no campo. Onde seja credível uma história tão brutal. Aquela mãe é um bocadinho brutal – mas aquilo aconteceu e aconteceu ainda há pouco tempo numa dessas aldeias. Ali, penso que por estarem lá fechados, é tudo exacerbado.

A violência é diferente da que existe na cidade grande?

A diferença está na morte escondida. Estou a debater-me com isso agora. O meu próximo filme [“Sangue do Meu Sangue”] passa-se num bairro social – não por razões folclóricas, mas sim filosóficas. Porque suponho que a luta pela sobrevivência ocupa tanto tempo a uma família de um bairro social que não têm tempo para elaborar reflexões sobre as emoções. E portanto as reacções às emoções são imediatas, são só reacções. O filme é o contrário da “Electra”, é sobre o amor incondicional de uma mãe por uma filha. Uma mãe que guarda um segredo terrível para salvar a filha. Se a filha não o conhecer, será salva.

Em “Mal Nascida” não há salvação. A Lúcia, que não foi vítima da incestuosidade do pai, ao contrário da irmã, acaba por repetir, com o irmão, os actos do pai.

O que ela faz com o irmão é a única forma de ela ter a certeza que é amada. É uma espécie de pacto. Ela acha que tudo o que o pai fez está certo. Essa parte, dela imitar o acto do pai, nunca tinha pensado. É um impulso. Por sacrifício. Para cumprir um desígnio mais alto. A estrutura mental dela só comporta aquilo. E assim torna-se um eco dos crimes da mãe, torna-se, para a mãe, um pesadelo vivo, permanente.

Mas no fim a Lúcia coloca-se no patamar da mãe, ao repetir o crime dela. Como se a tentasse perceber.

E é o único momento em que elas se encontram, em que há amor entre aquelas duas mulheres. Porque é só aí, quando não há solução, que ela pode aceitar que a mãe gosta dela e a ama. Mas não pode impedir-se de a matar.

João Bonifácio (PÚBLICO)  

Advertisements

~ por felix em Outubro 29, 2008.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: