“Porque se fotografa?” Gérard Castello-lopes por Hélio Paulo Félix

Aqui, a resposta afigura-se simples: para comunicar. Essa comunicação pode ser de ordem informativa ou estética. Da pintura, á qual, durante séculos, estavam cometidas essas funções – informar, através dum cânone estético, o teor duma batalha, a magestade de um rei, a serenidade duma paisagem – a fotografia herdou essas tarefas, com a acrescida e terrível responsabilidade da exacta parecença e da irrecusabilidade da prova.

Estas novas caracteristicas da imagem fotográfica conferem-lhe uma autoridade quase ditatorial que roça, por vezes, o ontológico: a coisa existiu  porque o fotógrafo estava lá. A insinuante e perversa consequência desta ideia é o que o que não foi fotografado, de certo modo, não existe. por isso se cita, a torto e a direito, o tal aforismo chinês 8que suspeito ter sido inventado por um fotógrafo): «uma imagem vale dez mil palavras». A ser verdade, este disparate significa que o papel cultural da palavara se tornou subsidiário do impacto irrefragavelmente informativo da imagem.

Quando o poeta Vasco Graça Moura escreve um terceto que diz:

 

O Mundo não aguenta

a narração

de mais nada

 

pergunto-me a mim próprio se não se tratará da terrível cosntatação de que estamos a viver um profundo choque cultural onde se substitui a palavra que descreve o mundo pelas arbitrárias imagens que os média querem fazer crer que o representam.

Seja como for, este conflito palavra/imagem é um dado da vida moderna, e tudo o que podemos fazer é cultivar alguma lucidez em relação a ele. Em primeiro lugar tomarmos consciência do conflito, entendermos que as palavras podem mentir e as imagens também; introduzirmos, em relação ao que se narra e se exibe, a cartesiana dúvida, único método de nos libertarmos das tiranias da propaganda ou da publicidade que se querem fazer passar por verdade objectiva ( a qual, como sabemos, não existe).

E aqui, ergue-se novamete, o espectro da ética da informação que nos leva a qualificar a resposta à questão que nos ocupa: fotografa-se para comunicar o que é moralmente legítimo ser comunicado, resposta que traz, por arrasto, a questão seguinte. Pode-se (deve-se) fotografar tudo?

Gérard Castello-lopes por Hélio Paulo Félix

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Uma resposta to ““Porque se fotografa?” Gérard Castello-lopes por Hélio Paulo Félix”

  1. É impossível fotografar tudo. Fotografar é deixar de lado, é escolher, é um exercício de liberdade. Daí as questões éticas e deontológicas. Quanto ao moralmento legítimo, há que contextualizar primeiro em que moral o fotógrafo, o sujeito fotografado e o resultado dos dois se inserem. Há muitas morais instutídas e menos individualmente reflectidas.

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